“Não volte de língua vazia”

21 de outubro de 2020

By Manu

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Depois do desembarque, já no posto de controle dos passaportes e de obtenção dos vistos era como se o ouvido dele tivesse voltado a infância, espaço no tempo sem interferências. Quase todo o mundo estava se expressando, se comunicando, falando, discursando no idioma local. Uma volta ao espaço no tempo demorada vinte e um anos, e algumas dezenas de milhares de quilômetros. Todo o mundo estava falando no idioma materno dele. O idioma que ele nunca tinha acabado de começar a aprender.

Porém, o primeiro que teve que aprender. Nem sabia que seria apenas o primeiro, pois naquela altura era o único que havia modo de existir : ocupava todo o lugar, impregnava todo os lugares, os espaços, os momentos. Logo depois, com os primeiros anos, com a escola é que começou a aparecer o outro. O outro, tirano, mandão, agressor. E, autoritário, finalmente. Na escola era proibido falar o idioma materno ou paterno que fosse. Devia-se imperativamente se expressar no outro idioma, que fosse já dominado ou que ainda estivesse em aprendizagem. Quem falasse, respondesse, interloquasse, reclamasse, demandasse  usando o idioma materno, apanharia. Regra simples, com uma intenção preventiva de dissuasão. O mestre administrava a punição. Ou, na modalidade mais cruel, a coleguinha, o companheiro de mesa, o camarada com a qual a situação tinha se posta, no caso vocês tivessem sido apanhados conversando junto num dos idiomas interditados. Quem se expressava num idioma indígena qualquer, apanhava. Foi assim que aquele segundo idioma se apresentou com cara de tirano e mandão :  na cabeça das crianças a língua da escola, a língua da escrita, a língua da leitura, a língua da expressão, da troca, da dúvida exposta ao mestre assumiu um aspecto um pouco odioso. Um aspecto odioso, agressor. A imposição agredia a fluidez expressiva, a rapidez e a criatividade comunicativa. O idioma imposto, cujo aprendizado mal tinha começado ou cujo domínio mal estava assentado agredia a própria formulação interna do pensamento. Os idiomas agridem a liberdade. Foi o primeiro pensamento concluído após reflexão dele. 

Crescendo, uma tentativa de nuance da reflexão conclusiva daquela primeira regra da escola veio se operando. Os idiomas dos outros, quando impostos assim tiranicamente, agridem minha liberdade.  

No meio, entre aqueles primeiros tempos na escola do seu país natal e a reflexão matizada, estavam anos de outros idiomas, outras formas de limitação ou de autêntico proibicionismo linguístico, outros confrontos, outras estratégias de resistência e de conservação de liberdade. Estavam outras malandragens, outras tomadas de consciência.  Estavam, naquele mesmo meio, outros níveis de tomada de consciência, outras intensidades e níveis de profundidade na forma de se pensar, de abordar a realidade, de reagir ou da agir nas várias situações. 

Já não tinha um mestre batendo nele por ele ter se expressado no idioma materno ou paterno, já não tinha que apanhar de um colega ou bater em uma coleguinha por ter recorrido indevidamente ao idioma materno. A tirania dos idiomas vinha se tornando algo mais legitimo, subtil, astuto. Antes, ele estava no seu país natal, num continente onde era corrente coisas serem impostas por estrangeiros ou forasteiros. Um idioma percebido como algo alheio lhe era imposto, em detrimento de idiomas e dialetos autóctonos. Agora, ele tinha pisado e vivido em outros países. Aprender os idiomas que lá eram naturais, isso era presentemente uma necessidade : sobreviver e ter possibilidades de evoluir nesses países dependia do aprendizado eficaz, sólido, mais ou menos racional desses outros novos idiomas. 

Existem idiomas autoritários, estes ditam uma lei que não entendo completamente mas que sinto intuitivamente como poderosa. A sua reflexão tinha se desenvolvido ainda mais. Ele entendeu enfim aquele sentimento antigo de absurdo, oriundo dos albores da sua educação escolar. Na escola, todo  mundo conhecia todo mundo, os pais eram amigos, por vezes até familiares dos mestres e das mestres ; os coleguinhas se cruzavam na feirinha uns ajudando as mães na venda de produtos do terreiro, outros cumprindo tarefas, encomendas para os pais, outros ainda ajudando nas lojinhas improvisadas dos artesãos. Nesses contextos do dia a dia, todos se comunicavam nos idiomas autóctones, com as fórmulas rituais do caso, seguindo os códigos tradicionais, cumprindo os protocolos típicos de diálogo, de troca e de conversação. Era o natural, o jeito mais puro, inato, simples, instintivo de se fazer as coisas. Porém, na escola, mundo à parte incrustado no mundo mais vasto que eles conheciam desde sempre, acontecia esse fenômeno estranho pelo qual todos deviam falar em um outro idioma, que não pertencia verdadeiramente, profundamente, fluidamente, a ninguém. Nem aos mestres, nem ao diretor, nem ao pessoal da administração, e muito menos aos alunos. Era come se na escola todo o mundo entrasse num papel. Um papel artificioso e porém, de certa forma, absolutamente obrigatório. Pessoas nascidas, crescidas e desenvolvidas naquela mesma terra, se esforçando com tanto ardor deliberado para fazer tudo em um idioma que todos de alguma forma ainda estavam aprendendo. Até mesmo o diretor e os mestres, talvez justamente por causa da sua pedantismo, davam a impressão de ainda se encontrarem na jornada de domínio do idioma. Era como estar numa peça teatral na qual os atores eram também os roteiristas, os maquinistas e os diretores. Esta percepção provocava nele um sentimento de estraneidade, de alienação, de absurdo, precisamente. 

Contudo, vivendo num país como o seu onde as pessoas acabavam aparentemente por aprender e se conformar com qualquer coisa e até tirar proveito numa forma não imediatamente compreensível aos forasteiros, ele também se capacitou com esta característica. Ele se aplicou deliberadamente a estudar, ler e praticar o idioma. Qual melhor forma de neutralizar o poder autoritário de alguma coisa senão de conquistar um domínio da coisa em questão ? 

Ele fez mais : se puxou a aprender outros cinco o seis desses idiomas. Idiomas que, ele ficou sabendo, também tinham sido línguas de uma tirania, de uma agressão e por fim de uma autoritariedade sob outras latitudes. 

A fila do contrôle das fronteiras estava avançando lentamente, ainda faltava para que fosse a vez dele. Recolhia fragmentos de diálogos entre passageiros, pedaços de informações fornecidas pelos militares de guarda, trocas de amizades nascentes entre viajantes. Quase todas essas interações advinham no idioma autóctone principal ou em um de seus dialetos.

Ele realizou o quão de fato, o idioma da escola tinha sido uma interferência. Seguida por outras interferências, as línguas sucessivas com as quais ele tinha se deparado. De modo que o seu próprio idioma materno e os dialetos derivados, permaneceram a língua que ele nunca tinha acabado de começar a aprender. E pensar que o nome do idioma, traduzido nos outros que ele vinha aprendendo significava « língua », simplesmente. Agora, neste aeroporto, descolorido na sua memória de tanto tempo que tinha decorrido da última vez,  todo mundo estava falando o idioma língua. Assim, a viagem inesperada para sua terra natal adquiria um significado novo, um significado colateral novo. Talvez ele já o pressentia na véspera da viagem.  Ele tinha decidido que não devia voltar de malas vazias. Ele tinha anotado sob forma de lembrete a si mesmo « Faça a viagem, a viva, a deixe acontecer, seja flexível às mudanças internas de rumo da própria viagem, tenha um olhar observador, use uma atitude acolhedora, aproveite. Aproveite a viagem. Mas não volte de malas vazias. Presentemente ele acrescentaria « Não volte de língua vazia »

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